Desde 26 de maio deste ano, a fiscalização da NR-1 sobre riscos psicossociais deixou de ser educativa e passou a ser punitiva. Empresas agora respondem por estresse, assédio e burnout como respondem por um andaime mal montado. É um avanço real. E é também um bom momento para fazer uma pergunta que a norma, sozinha, não alcança: e quando o risco não vem de fora?
Em 2025, a Previdência concedeu mais de 546 mil benefícios por incapacidade ligados a transtornos mentais. O maior número da série histórica. Os afastamentos por burnout cresceram cerca de 490% entre 2021 e 2024. Nenhum desses números é explicado apenas por chefes ruins.
A tese de Han
Em Sociedade do Cansaço, Byung-Chul Han descreve uma virada: saímos da sociedade disciplinar, feita de muros, proibições e vigias, para a sociedade do desempenho, feita de projetos, iniciativa e motivação. O verbo mudou. Antes era você deve. Agora é você pode.
Parece libertação. Han mostra que não é. O sujeito de desempenho se torna empresário de si mesmo: agressor e vítima na mesma pessoa. A exploração continua, mas perde o rosto. Ninguém precisa mais vigiar você. Você faz isso com afinco, nos fins de semana, de graça, e chama de propósito. Han é preciso ao dizer que essa autoexploração é mais eficiente que a exploração clássica justamente porque vem acompanhada do sentimento de liberdade.
A depressão, nessa leitura, irrompe no momento em que o sujeito de desempenho não pode mais poder.
Onde eu, como psicanalista, faço um contraponto
Han faz uma ressalva importante: para ele, esse sofrimento não seria mais um conflito entre o eu e seus ideais. Seria pura pressão de desempenho.
Freud, em Introdução ao narcisismo (1914), descreve o ideal do eu como o lugar para onde o sujeito transfere o narcisismo perdido da infância. A lembrança de ter sido, um dia, alguém perfeito aos olhos de outra pessoa. A autoestima passa a depender da distância entre o que sou e esse ideal. Não é um detalhe teórico: é a arquitetura do sofrimento cotidiano.
O que mudou, a meu ver, não foi a existência do ideal. Foi o regime dele.
O ideal antigo tinha rosto e contorno: o pai, o mestre, a instituição, uma tradição. Era exigente, mas era finito. Dava para atingir, para negociar, e até para trair. O ideal contemporâneo perdeu o rosto e, com ele, o limite. Ele se atualiza em tempo real, por comparação, em números que sobem sozinhos. É um ideal que não pode ser satisfeito porque não tem forma final.
Freud descreveu o eu empobrecido da melancolia. Hoje eu vejo, no consultório, algo próximo: pessoas produtivas, elogiadas, bem avaliadas, e internamente falidas. Não porque falharam. Porque a régua se move.
O que o cansaço está dizendo
Quem chega à clínica exausto quase nunca chega com raiva do chefe. Chega com raiva de si.
"Eu deveria dar conta." "Todo mundo faz e não reclama." "Se eu parar agora, perco o que construí."
Repare que nenhuma dessas frases é sobre trabalho. Todas são sobre valor. O cansaço aqui não é falta de energia, é o preço de sustentar uma imagem. E imagem, ao contrário de tarefa, não tem fim de expediente.
Por isso descanso não resolve. Férias devolvem energia para o mesmo circuito. Técnicas de produtividade otimizam a coleira. O sintoma não cede porque não estamos diante de um problema de gestão do tempo, e sim de uma dívida. A dívida impagável com um ideal que o sujeito não escolheu conscientemente e a quem, ainda assim, presta contas todos os dias.
O que a análise faz com isso
Não oferece equilíbrio, nem uma versão mais eficiente de você. Faz uma pergunta desconfortável e, talvez, libertadora:
De quem é esse ideal? E a quem essa performance está endereçada?
Porque toda autoexploração é, no fundo, exploração para alguém. Um olhar interiorizado tão cedo que passou a parecer voz própria. Quando alguém jura que se cobra "só por si mesmo", costuma haver um espectador antigo na plateia — e a análise trabalha para que esse espectador saia do escuro e ganhe nome, história e tamanho real.
O que se ganha não é parar de querer. É poder querer algo que seja seu e, com isso, recuperar o direito de decepcionar alguém sem se desfazer inteiro.
Uma nota para quem lidera
Mapear risco psicossocial é necessário e agora é obrigatório. Mas nenhum questionário captura o funcionário que sai às 18h e continua trabalhando dentro da própria cabeça até dormir.
Vale um exame honesto na cultura: quantas das frases que sua empresa usa para inspirar são, na prática, ordens de gozo? "Faça o que você ama e não trabalhe nunca mais" é uma sentença que apaga a fronteira entre vida e produção, e apagar essa fronteira é, hoje, um fator de risco.
Han encerra o livro sugerindo que existe outro cansaço: não o cansaço solitário que isola e emudece, mas um cansaço que relaxa a garra do eu e devolve o mundo, o outro, o tempo sem finalidade.
Não é o cansaço que precisa acabar. É a solidão dele.
Afastamentos por transtornos mentais em 2025, recorde da série histórica: Previdência Social/INSS · Burnout: Previdência Social (apuração AMATRA1) · NR-1 e fiscalização de riscos psicossociais a partir de 26/05/2026: TST e TRT-4.
Referências
HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015 · FREUD, S. Introdução ao narcisismo (1914); Luto e melancolia (1917).