Ensaio

Eros: do desejo
ao amor

Rodrigo Reis Amaral Outubro 2026 Psicanálise & Filosofia

A palavra

Em português, amor vem do latim amare e serve para tudo: amamos um filho, um amigo, uma pessoa, um lugar. Os gregos tinham mais nomes. Philia era a amizade; storgé, a ternura da família; agápe, o amor que se doa. E havia Eros, de éramai, "desejar ardentemente", o único deles que nomeia o desejo: o amor que falta, que procura, que move. É esse Eros, escondido dentro da nossa palavra "amor", que vou seguir aqui.

Do mito à filosofia

Na Teogonia de Hesíodo, Eros surge entre os primeiros deuses, logo depois do Caos e da Terra, sem pai nem mãe. Não é ainda o menino alado com arco e flecha. É a força que une o que estava separado. Desde a origem, Eros é aquilo que faz laço.

Séculos depois, em O Banquete, Platão reúne amigos para falar sobre o amor, e dois discursos atravessam a história. Aristófanes conta que os humanos eram seres duplos, cortados ao meio por Zeus, e que desde então procuramos a nossa metade. É o mito da completude, que ainda hoje embala a ideia de "alma gêmea".

Sócrates responde com outro mito, que diz ter ouvido da sacerdotisa Diotima, mas que é, na verdade, criação do próprio Platão. Nele, Eros não tem a origem que a tradição lhe dava. É filho de Poros, o Recurso, e de Pênia, a Pobreza. Herda da mãe a carência e do pai a engenhosidade: vive sempre faltando e sempre buscando. Com essa genealogia inventada, Platão vira o mito de Aristófanes do avesso. Não amamos para recuperar uma metade perdida. Amamos porque só se deseja aquilo que não se tem.

O amor não nasce da completude. Nasce da falta.

A psicanálise

Freud chega a Eros aos poucos. Em Introdução ao narcisismo (1914), ele observa que o eu pode tomar a si mesmo como objeto de amor, e adverte que é preciso amar para não adoecer: quem retém todo o seu amor em si mesmo acaba empobrecido.

Em Além do princípio do prazer (1920), Freud reorganiza a sua teoria em torno de duas grandes forças. De um lado, as pulsões de vida, que ele passa a chamar de Eros: aquilo que liga, aproxima e constrói unidades cada vez maiores, de dois corpos a uma família, de uma família a uma cultura. Do outro, a pulsão de morte, que tende ao desligamento e à dissolução. A vida psíquica é a tensão entre as duas.

Em Psicologia das massas e análise do eu (1921), ele assume a herança abertamente: diz que a libido, a energia do amor tal como a psicanálise a entende, coincide com o Eros do "divino Platão". O deus que, em Hesíodo, unia o que estava separado volta, com Freud, como a força que nos leva a fazer laço com o outro.

Lacan relê O Banquete no Seminário 8 e chega a uma fórmula que ecoa o mito de Platão:

Amar é dar o que não se tem. Não amamos porque estamos completos e transbordamos. Amamos porque algo em nós falta, e é essa falta que oferecemos ao outro.

A ponte para os livros

Se Eros é desejo e o desejo nasce da falta, duas perguntas se impõem: o que acontece com o amor num tempo que não suporta faltar? E o que fazemos com a solidão que nenhum amor preenche?

São exatamente essas as perguntas de dois livros que leio lado a lado. Em Agonia do Eros, Byung-Chul Han mostra como o narcisismo da nossa época, aquele que Freud já via adoecer, apaga o outro em sua diferença, e com ele o próprio Eros. Em A gente mira no amor e acerta na solidão, Ana Suy parte da psicanálise para mostrar que a falta não é o fracasso do amor, mas a sua condição. Um livro fala do amor que estamos perdendo. O outro, do amor que só existe porque nunca nos completa.

Referências Hesíodo, Teogonia, vv. 116–122 · Platão, O Banquete, 189c–193d e 199c–212c (mito de Poros e Pênia em 203b–e) · Freud, Introdução ao narcisismo (1914), Além do princípio do prazer (1920), Psicologia das massas e análise do eu (1921), cap. IV · Lacan, Seminário 8: A transferência (1960–61) · Han, Agonia do Eros (2012) · Suy, A gente mira no amor e acerta na solidão (2022)