Tem livro que a gente lê. E tem livro que lê a gente.
Mau Hábito, de Alana S. Portero. Madri dos anos 80, um bairro operário, e uma menina que sabe de si muito antes de poder dizer de si. Portero escreve com uma beleza quase insuportável — não pede licença, não explica, não pede autorização para existir.
E é aqui que o livro toca em algo profundamente humano: todos nós nos descobrimos sob o olhar do outro. Esse olhar que pode fundar ou condenar. O desejo nasce exatamente na mesma cena em que nasce o medo.
Porque desejo e medo não são forças opostas — são feitos da mesma matéria. Nascem juntos, do mesmo gesto: o de se expor. Quem deseja, teme, porque desejar é entregar ao outro alguma coisa de si. Portero não separa os dois: ela os mostra colados, indissociáveis, como duas faces de uma mesma vontade de existir.
O que ela narra é uma resistência. A insistência em atravessar o medo sem abrir mão do desejo. Porque não se trata de virar aquilo que esperam de nós — trata-se de chegar num lugar que só nós podemos ocupar.
Uma novela sobre encontrar o próprio lugar. Vale cada página.